136 telas monumentais que mergulham no mito de D. Sebastião, revistado pelo artista luso australiano, ocupam oito salas do antigo convento templário, num percurso que o próprio artista descreve como “uma odisseia pictórica”.
Abercromby, radicado em Portugal há 35 anos, confessa ter começado esta série há 12 anos. O ponto de partida foi insólito: a leitura de um opúsculo sobre D. Sebastião, enquanto pastoreava cabras no Alentejo, momento em que olhou para o céu e viu rastros dos aviões. “E se o rei regressasse hoje e visse isto?” — perguntou-se. A resposta foi o primeiro quadro da série, pintado nessa mesma noite.
Um pedido a um amigo sobre documentos sobre D. Sebastião culminou numa avalanche documental que expandiu o horizonte do projecto para além da história, tocando na antropologia, na psicologia e nos arquétipos de salvador que atravessam 500 anos. Nasceu esta “enorme possibilidade de compará-lo com todos os outros arquétipos do rei perdido, o príncipe perfeito, o salvador futuro, o salvador à espera”.
O resultado é uma cronologia emocional da lenda sebástica, ainda que o artista rejeite a ideia de relato histórico: “Não estou a ilustrar a história; estou a inventá-la”, afirma enquanto recusa a ideia de misticismo.
As telas foram ganhando vida, entre o sono e o sonho, apoiadas na “lista de coisas fundamentais” a incluir na tela, assinala Sam Abercromby. O número de obras foi-se sucedendo, “comecei a acumular quadros até encher o estúdio”, explica. A oportunidade de mostrar o conjunto surgiu depois de um telefonema ao Convento de Cristo, onde, “quase sem acabar a conversa”, lhe cederam espaço para pendurar mais de uma centena de obras.
“Só cederam oito salas; se esperassem mais um ano eu pintava mais 30 quadros”, diz com humor, o artista.
É a inspiração que lhe indica o caminho. A cadência criativa impressiona: “Pinto durante quatro horas seguidas… de cada vez que durmo uma sesta acordo com mais um quadro”. Aos 75 anos, Abercromby confessa o desejo de “pintar o máximo possível até o pulso já não aguentar mais”. Se possível, conquistar “um lugar num livro sobre a pintura portuguesa do século XXI”.
Visitantes portugueses e estrangeiros repetem palavras como “fantástico” e “alucinante”, após uma visita à exposição. A maioria dos painéis mede 2,5 m × 1,90 m; os formatos menores ocupam corredores e intervalos visuais, criando pausas na “cronologia informal” que o artista imaginou.
A mostra está patente até 31 de agosto, diariamente, das 09h00 às 17h30, no Convento de Cristo, em Tomar. Entrada grátis para residentes em Portugal (mediante apresentação de NIF).