“Elsa, um autocarro urbano despistou-se e embateu no hospital.”
Preparava-me para ir almoçar quando o telemóvel tocou com esta informação. O trabalho de um jornalista começa muitas vezes assim, com uma informação que chega através de uma mensagem ou de um telefonema.
Lembro-me de ter ficado parada, estarrecida. Estes autocarros costumam andar cheios de gente e um acidente dentro do hospital ainda é mais invulgar. Lembro-me de engolir em seco, pois sabia que não ia ser bom o que ia encontrar.
Já não fui almoçar. Voltei atrás, peguei na mala de reportagem e fui sem saber o que iria encontrar. Estacionei e vi ao longe o aparato, muita gente no local. Procurei perceber o que tinha acontecido.
Como jornalista, faço sempre o meu trabalho com o maior respeito pelas forças de segurança e pelos meios de socorro, pois o mais importante é que cuidem de quem tem de ser cuidado. Aproximei-me e tentei perceber o que se passava, a gravidade, o número de vítimas. Falei com quem estava por ali, algumas pessoas ainda tremiam. Era a única jornalista no local.
Depois procurei confirmar dados junto dos bombeiros, fontes oficiais. Tirei fotografias e filmei, cuidando para não apanhar ninguém de frente. Ali perto surgiam algumas informações contraditórias, de que alguém teria morrido. Também ouvi que se estava a aguardar a chegada da Delegada de Saúde e percebi que o pior tinha acontecido: alguém tinha perdido a vida. Uma mãe, alguém com uma família. Só o noticiei mais tarde, pois sinto que a família tem de o saber pelas entidades, não pelo jornal.
Como jornalista, fiz o que tinha de fazer. Mas como pessoa, não consigo deixar de pensar no quão imprevisível é a vida.
Ninguém apanha um autocarro a pensar que pode ser a sua última viagem. Ninguém sai de casa de manhã a contar que não volta. Entramos, validamos o passe, escolhemos um lugar à janela, pensamos na lista das compras, no que vamos fazer para o jantar. A vida acontece nesses gestos tão pequenos e tão banais.
E é isso que mais me abala.
Há 20 anos a fazer jornalismo nesta cidade, seria muito provável que conhecesse a senhora, nem que fosse de vista, como era o caso. Cruzamo-nos no mercado, na fila do pão, num destes autocarros que andam sempre cheios.
De um minuto para o outro, uma rotina torna-se destino.
Perante esta imprevisibilidade, perante uma vida que é tão efémera e nos pode ser tirada assim, custa-me ainda mais a maldade que vejo por aí. As discussões por nada, os orgulhos que duram anos, as palavras que guardamos, os abraços que adiamos, o “depois digo-lhe” que fica para depois.
Tudo isto é triste. Tudo isto é verdade.
A vida continua. Tem de continuar. Mas para a D. Fátima já não.
Os meus profundos sentimentos à família.
Elsa Ribeiro Gonçalves
Chefe de Redacção
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