Três semanas depois da tempestade Kristin, que fustigou o concelho de Tomar e toda a região, o cenário ainda é de reconstrução. As marcas estão nas casas, nas estradas, nos campos e, sobretudo, nas pessoas. Ao longo destes dias, os presidentes de junta foram o primeiro rosto a quem as populações recorreram. Incansáveis e, muitas vezes, dominados por um sentimento de “impotência”, estiveram no terreno desde a primeira hora, muitas vezes de motosserra na mão, outras a consolar, a ouvir, a insistir junto das entidades competentes.
“Não foi fácil e eu emociono-me facilmente. Estar a ver as pessoas aflitas e não conseguir resolver tudo, porque isto foi uma catástrofe, é duro. Não conseguimos atender toda a gente, é revoltante. E eu deixei tudo o que era meu para trás. A minha própria casa também sofreu danos. Mas andei sempre com as equipas da E-Redes, queria que as pessoas tivessem luz.” A voz embargada do presidente da União de Freguesias de Casais e Alviobeira, Luis Freire, mostra ainda a carga de tudo aquilo com que teve que lidar nas últimas três semanas. “Ainda há muito poste derrubado. Não se devia permitir que a vegetação crescesse debaixo das linhas e a plantação dos eucaliptos devia ser mais ordenada”, defendeu.
“Temos setenta por cento das habitações foram afetadas. Tivemos centenas de postes danificados e quilómetros de cabo no chão. Hoje, ainda há muito trabalho a fazer”, refere. O lado social também não é esquecido. “Somos uma freguesia envelhecida. Há idosos que não têm filhos por perto. Temos andado a ajudar no que podemos: alimentação, bens essenciais, apoio social. É revoltante quando sentimos que os meios não chegam para todos”, disse. A água já foi reposta, mas ainda há casas sem eletricidade. Mesmo assim, reconhece que é ainda mais necessário espírito de união, embora tivessem muitos populares a ajudar a abrir estradas. Critica ainda quem, nestes tempos, rouba gasóleo de um gerador. “Todos necessitamos de ser ajudados. Há muita casa destruída ainda… vão ficar muitas marcas”, disse.
Falta de água e de eletricidade criou situações dramáticas
“Não foi nada fácil, principalmente devido à falta de água e eletricidade. E nós, sermos impotentes, não conseguirmos resolver essas situações. Eu sentia-me impotente. Podia cortar árvores, desimpedir caminhos e fiz isso, muitas vezes sozinho, mas não podia repor a eletricidade ou a água. Só podia insistir junto das entidades competentes.” As palavras são do presidente da junta da Asseiceira, Fernando Ferreira, que fala que “os primeiros oito a dez dias foram muito difíceis”, uma vez que a falta de água e de eletricidade criou situações dramáticas.
“Fomos atingidos a vários níveis: barreiras caídas, estradas obstruídas, árvores por todo o lado, falta de energia e de água. Em termos de habitação, tivemos alguns danos em telhados, mas reconheço que não fomos das freguesias mais fustigadas. Houve uma casa atingida que deixou uma família desalojada, esse foi o caso mais grave”, relatou.
“Hoje, 21 dias depois, a água está estabilizada e, segundo a informação que temos, a energia elétrica está reposta. Mas continuamos com pontos críticos, como a estrada da Matrena. Pode circular-se, mas de forma condicionada. Quem puder evitar, que evite. As terras estão saturadas de água e continuam a verificar-se deslizamentos”, sublinha. O cancelamento do Carnaval foi ponderado, também tendo em conta os danos no espaço onde se realizavam os bailes, como em termos emocionais. “Alinda estávamos numa fase de transição, com esta situação temos estado no terreno de manhã à noite e não tem havido tempo para outras questões. Além do trabalho normal que já tínhamos, temos este trabalho acrescido. Espero, realmente, que o pior tenha passado.”
O presidente da Junta de freguesia de Carregueiros, Francisco Santos, reconhece que, 21 dias depois, “a acalmia já chegou, caminhamos a passos largos para a normalidade”, uma vez que os caminhos estão limpos, a eletricidade está reposta e a água voltou rapidamente. Logo no próprio dia da tempestade, lançou mãos à obra. “Começámos a desobstruir as vias para que as pessoas pudessem circular. Na sexta-feira seguinte, já estava praticamente tudo transitável”, indica. O autarca reconhece que Carregueiros não foi das freguesias mais afetadas, mas sentiu as dificuldades. “Mantivemos sempre um contacto próximo com a população. Foi isso que fez a diferença, mas ainda há trabalho a fazer e muitos fios no chão”, disse.
O presidente da Junta de Freguesia de Paialvo, Amâncio Ribeiro, referiu ao nosso jornal que a freguesia não foi das mais afetadas no concelho, embora também tenha sofrido danos significativos. “A nível das habitações, houve várias casas com telhados arrancados”, explicou. A Junta, em articulação com o Município, tem procurado repor a normalidade possível. “Estivemos muitos dias sem energia elétrica, mas neste momento o fornecimento está restabelecido”, adiantou.
“Quem acaba sempre por ouvir é o presidente de junta”
Contudo, persistem problemas. Há ainda muitas aldeias sem iluminação pública e, no que respeita às comunicações, a situação mantém-se crítica. “A MEO continua em baixo, tal como a NOS e a Vodafone. Há pessoas que estão desde o primeiro dia sem comunicações”, sublinhou. O autarca acrescenta que o trabalho está longe de estar terminado: “Ainda há muito a fazer, sobretudo ao nível da limpeza e remoção de detritos.”
“Por vezes, há pessoas que não compreendem que não está no nosso poder resolver determinadas questões, mas eu compreendo-as. Quem acaba sempre por ouvir é o presidente de junta”, afirmou. Ainda assim, destaca o espírito de entreajuda: “Na limpeza, toda a população ajudou e correspondeu para que tudo ficasse resolvido o mais rapidamente possível.”
Segundo o autarca, o mais urgente, neste momento, é a reposição da iluminação pública e do sinal de televisão. “Para muitos idosos, a televisão é a sua companhia diária. Estarem sem ela durante tanto tempo é difícil e pedem-me muito.”