Há histórias que começam sem ninguém perceber bem que estão a começar. A minha começou atrás do balcão de um pequeno café dos meus pais, entre chávenas, conversas de clientes e os livros da escola. Enquanto ajudava a servir mesas, fazia outra coisa sem saber: observava. Observava as pessoas, as suas histórias e as pequenas alegrias do dia-a-dia. Hoje percebo que foi ali que comecei a aprender uma das primeiras regras do jornalismo: olhar para o mundo com curiosidade.
Na escola primária houve um pequeno sinal que ficou comigo. A professora começou a elogiar as minhas redações e, por vezes, lia-as em voz alta para a turma. Ao mesmo tempo via reportagens na televisão e imaginava como seria estar nesses lugares, a contar histórias. Foi então que, ainda criança, decidi algo que parecia improvável para muitos: queria ser jornalista.
Criei até o meu primeiro jornal, feito para os clientes do café dos meus pais. Tirava fotografias, fazia perguntas e escrevia pequenas histórias. Era um jornal improvisado, mas para mim era muito sério. Anos mais tarde cheguei à universidade. Não foi um caminho fácil, mas os sonhos verdadeiros têm uma forma curiosa de nos chamar de volta.
Em 2005 comecei finalmente a trabalhar como jornalista, com carteira profissional. Desde então tenho assistido a uma grande transformação na profissão. Quando comecei, o papel dominava e as redes sociais praticamente não existiam. Hoje o mundo é digital, imediato e veloz, e os jornalistas tiveram de se reinventar muitas vezes. É neste contexto que o Cidade de Tomar celebra 91 anos de vida. Noventa e um anos a contar histórias da cidade e das suas gentes. Noventa e um anos a acompanhar mudanças, desafios e conquistas. Noventa e um anos de memória coletiva.
Num tempo dominado pelo digital, continuar a fazer um jornal local é também acreditar que as histórias das pessoas, das instituições, das associações e das empresas da nossa comunidade merecem ser contadas.
Porque um jornal local é mais do que um conjunto de páginas.
É um espelho da comunidade.
É um arquivo daquilo que somos.
Ao longo destas décadas, o Cidade de Tomar só foi possível graças à ligação com os seus leitores e com todos aqueles que fazem parte da vida desta cidade.
Por isso, nesta edição de aniversário, mais do que olhar apenas para o passado, o convite é simples: não desistir.
Não desistir de acreditar na importância da informação local.
Não desistir de valorizar aquilo que é nosso.
Não desistir de continuar a contar as histórias da nossa terra.
Porque os tempos mudam, os formatos mudam, mas há algo que permanece: a necessidade de contar histórias verdadeiras sobre o lugar onde vivemos.
E enquanto houver quem acredite nisso, haverá sempre razões para continuar.
Elsa Ribeiro Gonçalves
Chefe de Redação