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Tomar

Editorial – Não é tempo para insultos

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Tenho evitado pronunciar-me sobre o que se tem passado nas redes sociais. Não por indiferença, mas por prudência. Ainda assim, hoje senti que devia partilhar aquilo que me vai no coração. Os editoriais existem precisamente para isso: para dar opinião, com responsabilidade e sentido cívico.
E o que tenho assistido nas últimas duas semanas – lembrando, em muitos aspetos, os tempos mais duros da pandemia – é profundamente inquietante. Isto, porque há pessoas que estão, neste momento, a passar muito mal. Pessoas que ficaram sem praticamente nada. Pessoas que não conseguem tomar um banho quente, aquecer uma refeição ou garantir o mínimo de conforto. Pessoas que sobrevivem, muitas vezes, apenas graças à ajuda solidária de um vizinho, porque os meios institucionais tardam ou simplesmente não chegam. Onde estão esses meios? Confesso que não sei. Também não os vi no terreno, pelo menos nas dezenas de aldeias por onde passei em reportagem. Isso não significa que não existam, acredito – e espero verdadeiramente – que estivessem noutros lugares. A realidade, muitas vezes, é mais vasta do que aquilo que conseguimos alcançar.
“Então porque não vêm aqui?! Também estamos mal…” – perguntam-me. Por vontade própria, iria a cada aldeia das 12 freguesias do concelho de Tomar. Mas isso é humanamente impossível. Há limites físicos, humanos e profissionais. E é importante termos a humildade de reconhecer a nossa própria insignificância perante a dimensão dos problemas.
O que claramente não estamos a viver é um tempo para insultos. E, no entanto, é isso que mais se vê. Se alguém limpa, é porque limpou. Se não limpa, é porque não fez nada. Se se apoia, critica-se quem recebe. Se não se apoia, critica-se quem não deu. Faça-se o que se fizer – ou deixe de se fazer – parece que haverá sempre um coro pronto a condenar.
Para não me alongar mais, recordo uma história popular que aprendi nos bancos da escola primária e que aqui deixo, porque continua atual.
O VELHO, O RAPAZ E O BURRO
Era uma vez um velho simpático que vivia no cimo de um monte. Certo dia decidiu descer à vila em aventura, levou consigo um burro que pastava à deriva no mato e um rapaz seu vizinho.
Seguiam a pé, o rapaz à frente, seguido do burro, e atrás o velho. Ao passarem por uma povoação, logo foram criticados pelos que observavam a sua passagem.
– Olha aqueles patetas, com um burro e vão a pé.
O velho disse ao rapaz que montasse no burro e este assim fez, com os olhos esbugalhados e ar triunfante, pois nem nos seus melhores sonhos imaginou que lhe fosse possível participar em tal aventura. Um pouco mais adiante, passaram junto de outras pessoas que logo disseram:
– O garoto que é forte montado no burro e o velho, coitado, é que vai a pé.
– Então o velho mandou apear o gaiato e com alguma dificuldade lá montou ele o burro.
Andaram um pouco mais até que encontraram outras pessoas e mais uma vez foram censurados:
– Olhem para isto! O pobre rapaz a pé e ele repimpado no burro…
Ordenou então o velho a contragosto ao catraio:
– Sobe, rapaz. Seguimos os dois montados no burro.
O rapaz, que era tudo o que queria, obedeceu de imediato e continuaram a viagem, mas um pouco mais adiante um grupo de pessoas enfrentou-os com indignação:
– Apeiem-se, seus abusadores! Querem matar o burrinho?
Descendo do burro, com ar aliviado, disse o velho ao rapaz:
– Desce. Continuamos a viagem como começamos. Está visto que alguma coisa está errada e não podemos calar a boca do Mundo.
Então o burro, já derreado, zurrou de alívio, pois a carga era pesada…
Diz-se que nunca mais voltou a ser o mesmo.
Moral da história: cada cabeça, sua sentença… Por isso, ao invés de usarmos as nossas mãos para insultarmos e criticarmos o outro, escondidos atrás de um teclado, que tal usarmos as mãos para as estendermos ao outro?
Elsa Ribeiro Gonçalves
Chefe de Redação
Jornal Cidade de Tomar

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